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Hela

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24
Out19

#Outubro Rosa | O cancro contado em primeira mão

A Isa venceu esta batalha e numa entrevista ela contou o seu processo pessoal.

Tita Vicente

banner #outubrorosa #Isa.pngArte criada por mim. Imagens retiradas do Pinterest.

 

Confesso que provavelmente teria perdido a motivação de fazer este especial #OutubroRosa se a Isa não tivesse aceitado dar-me esta entrevista. Sinto que ter o ponto de vista de alguém que viveu esta história de perto é essencial e que acaba por ter ainda mais impacto na vida do outro e poderá ser o gatilho para a mudança de muita gente.

Para quem não sabe a Isa é a dona do blogue, Lost in Wonderland, e ela já travou uma batalha contra o cancro da mama. O caso dela teve um final feliz, pois foi um cancro detetado precocemente. É por esta razão que alertei durante todas as publicações para a importância da prevenção.

São sete perguntas que abordam desde a descoberta à dificuldade em encontrar artigos em português sobre o assunto. Falou-se um pouco de tudo o que acho que é importante para alertar e para dar a conhecer o ponto de vista dela. A entrevista está aqui em bruto, sem qualquer alteração, pois acredito que só faz sentido com respostas feitas na primeira pessoa.

 

Como foi que descobriste? Já fazias prevenção antes ou foi por “um acaso”?

Foi por volta dos 27 ou 28 anos que iniciei a chamada prevenção secundária (feita com recurso a exames de diagnóstico por imagem). Na consulta anual de ginecologia, pedi à médica que incluísse uma ecografia mamária nos exames de rotina, e continuei sempre a pedi-la, mesmo com os exames a saírem limpinhos ano após ano.

Com o passar dos anos, começaram a surgir alguns achados benignos (quistos), e cujo desenvolvimento foi sendo acompanhado. Aos 36 fiz a primeira mamografia por sugestão do médico de imagiologia. Normalmente é aconselhada a partir dos 35-40 anos.

Portanto, sim! Foi graças à prevenção que o meu cancro foi apanhado tão cedo, quando ainda nem sequer era palpável, e numa fase em que era perfeitamente curável, sem necessidade de tratamentos muito agressivos.

 

Qual foi a tua reação inicial? No blogue abordas o tema de uma forma bastante diferente do comum. Sempre com uma mensagem positiva, de esperança.

Não tenhas dúvidas que este foi o maior susto que apanhei em toda a minha vida... Uma coisa é estares confortável com a ideia que possa, eventualmente, um dia quem sabe, acontecer, até porque fazes os possíveis para levar um estilo de vida saudável, sem comportamentos de risco, e não tens antecedentes na família. Outra, é receberes a noticia.. Naquele momento, perdes o chão, simplesmente congelas... psicologicamente, é muito violento.

Quando o susto começou a dissipar, e comecei a voltar a mim, abordei o problema como todos os outros que me aparecem pela frente: como um desafio que tenho para superar. Ter um mindset orientado para a resolução de problemas fez toda a diferença, foi só preciso arranjar forma de mandar a ansiedade ir dar uma curva, para não atrapalhar o processo.

A forma como cada um vive a doença é muito própria. Se fores naturalmente pessimista, com tendência para a vitimização, vais sentir mais dificuldades durante o longo processo do tratamento. Se por outro lado fores descontraída, optimista, e não de deixares abalar pelos desafios que a vida te coloca no caminho, a história é completamente diferente.


Existiu algum momento em que pensaste que aquilo poderia ser uma batalha que irias perder?

Se te respondesse que "não", estaria a mentir. Acho que essa ideia vem sempre ao de cima, por mais optimista que seja o prognóstico. Porque até passares pela parte da cirurgia e chegar o resultado da patologia, ninguém tem bem a certeza do que pode estar lá. E eu prefiro segurar as minhas emoções num ponto, do que as deixar andar em carrocéis.

E mesmo hoje, apesar de me terem garantido que estava curada, não nego que tenho uma preocupaçãozinha sempre presente, ali no fundo da mente, de que alguma célula possa ter escapado, e ter adquirido as mutações necessárias para invadir outras partes do corpo. Tento não pensar muito no assunto para não ter ansiedade às contas disso, mas esta preocupação também serve de alerta para andar atenta a qualquer sintoma fora do normal, e ir logo a correr ao médico.

 

Qual foi o pensamento que sempre permaneceu durante os tratamentos para te ajudar a vencer a batalha?

Encarei todo o tratamento, não pela perspectiva da batalha, mas como se de uma experiência científica se tratasse. Quis saber tudo o que há para saber, andei tão ocupada a aprender, e a perceber as reacções do corpo, que não sobrou tempo para outro tipo de pensamentos. Vi a informação como uma aliada, para perceber tudo o que me estava a acontecer. 


Como foi lidar com a família e com as suas próprias “expectativas”. Por exemplo, se houve alguém de quem te tenhas afastado um pouco por não estar a transmitir-te a ideia de esperança e positividade num assunto tão complicado?

Tentei poupar a família ao máximo, por inúmeras razões, entre elas, preocupação excessiva desnecessária. E como não tive que fazer tratamentos de quimioterapia e o cabelo não ia cair, preferi manter a coisa low profile, principalmente porque não queria saber de bitaites (existe uma ignorância abismal a respeito do cancro), nem de ouvir histórias de parentes que também tiverem a doença. Temos que estar concentrados em nós e na nossa saúde, não em andar a gerir as emoções que possam surgir nos outros devido à nossa doença. Pode parecer egoísta da minha parte, mas evitamos situações desagradáveis e até desconfortáveis.

 

Achas que existe ainda alguma falta de informação disponível? Seria importante as associações de apoio criarem separadores dentro dos seus sites com mais informações e mais atualizadas?

Na minha opinião, não estamos bem servidos informação sobre cancro (num todo, não só da mama). Se pesquisarmos com alguma persistência, até conseguimos encontrar alguns projectos, mas no geral são bastante incompletos, e por vezes até desactualizados. Alguns sites de hospitais e instituições ligadas à saúde até têm secções sobre cancro, mas a informação está dispersa, e o tema é explorado de forma superficial. Em sites onde até existe alguma informação, como o da Liga Portuguesa Contra o Cancro, nem sempre são fáceis de consultar, pois têm demasiadas secções diferentes, e perdemo-nos muito facilmente. 

Não é que não exista informação na nossa lingua, que existe e até com muito boa qualidade (embora tenha algumas dúvidas quanto à atualização, pois não mostram a data da última revisão). Tenho uma colecção de PDFs e DOCs que estavam refundidos em páginas das especialidades e outras coisas bastante técninas, que nunca chegaria lá sem fazer pesquisas ultra especificas no Google. Mas lá está, eu sei o que pesquisar, outras pessoas terão mais dificuldade, em chegar lá e até interpretar este tipo de informação. 

Precisamos de um American Cancer Society (https://www.cancer.org/) ou de um Cancer Research UK (https://www.cancerresearchuk.org/), um portal exclusivamente dedicado ao grupo de doenças caracterizadas por cancro, com conteúdos de qualidade, escritos em linguagem clara e objectiva, e em permanente actualização. Um sitio que se tornasse numa referência, para quem se vê confrontado com a doença, encontrar facilmente informação relevante.

Infelizmente, sei que fazer algo dentro deste género, bem feito, não é fácil... e não creio que uma associação consiga ter recursos para tanto, pois tem que envolver muita gente, incluindo muitos profissionais ligados à medicina.

 

Tens alguma mensagem que queiras deixar as pessoas que declinam a prevenção, mesmo sabendo que um diagnóstico precoce pode ser crucial para que esta luta seja superada?

Não vou dizer nada que ninguém não tenha ouvido já: aproximadamente 1 em cada 10 mulheres vai ter cancro da mama, é a segunda causa de morte entre as mulheres de todas as idades. A prevenção primária (manter estilo de vida saudável e não ter comportamentos considerados de risco, como fumar ou ingerir álcool) nem sempre é suficiente para manter a doença à beira, porque há um conjunto de pequenos factores, que nem sempre conseguimos evitar, e que juntos podem causar estragos. É por essa razão que devemos também apostar na prevenção secundária, e pedir exames de rotina aos nossos médicos, mesmo que não tenhamos sintomas.

 

Espero que tenham gostado tanto da entrevista como eu gostei de faze-la. Se quiserem saber mais um pouco da jornada da Isa ou das suas peripécias de vida não deixem de acompanhá-la no seu blogue!

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